quinta-feira, agosto 19, 2010

Pra voltar aos poucos...

Quando vi a listinha abaixo no blog da Flá, achei que seria um bom meme pra eu voltar a postar nesse blog, já que tentativas muitas foram infrutíferas. Fora que é uma graça, vou abrir o coração. A começar por hoje.


Dia 01 – Sua música favorita
Dia 02 – Seu filme preferido
Dia 03 – Seu programa de televisão favorito
Dia 04 – Seu livro favorito
Dia 05 – Uma citação de alguém
Dia 06 – Uma experiência inesquecível
Dia 07 – Uma foto que te faz feliz
Dia 08 – Uma foto que te deixa irritado / triste
Dia 09 – Uma foto que você tirou
Dia 10 – Uma foto de você há mais de dez anos
Dia 11 – Uma foto sua recente
Dia 12 – Um conto
Dia 13 – Um livro de ficção
Dia 14 – Um livro não-ficcional
Dia 15 – Uma fotomontagem
Dia 16 – Uma musica que faz você chorar (ou quase)
Dia 17 – Uma obra de arte (pintura, desenho, escultura, etc)
Dia 18 – Um poema
Dia 19 – Um talento seu
Dia 20 – Um hobby
Dia 21 – Uma receita
Dia 22 – Um site
Dia 23 – Um vídeo do YouTube
Dia 24 – Seu lugar preferido
Dia 25 – O seu dia, em grande detalhe
Dia 26 – Sua semana, em grande detalhe
Dia 27 – Este mês, em grande detalhe
Dia 28 – Este ano, em grande detalhe
Dia 29 – O que você espera, os sonhos e planos para os próximos 365 dias
Dia 30 – O que você quiser
Dia 31 – O Bônus ou O Fim

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Routine



Eve Arnold, 1954, Havana, Magnun Agency


To Make Routine a Stimulus
Remember it can cease -
Capacity to Terminate
Is a Specific Grace -
Of Retrospect the Arrow
That power to repair
Departed with the Torment
Become, alas, more fair -

Emily Dickinson, 1871


Aquele fora um dia pesado. Maria levantou-se da cama na mesma hora de sempre, às seis e meia da manhã, horário a que seus olhos já se acostumaram. Adestrados, eles se abriram inesperadamente, trinta segundos antes do soar do despertador. O marido roncava a seu lado, chegara bêbado na noite anterior. Maria não era mulher de se enrolar, olhou para os lados e levantou-se, muito rapidamente. Após movimentos rotineiros da manhã, que ela fez mecanicamente, como um pequeno robô, saiu para trabalhar, deixando para o marido e para as crianças o desjejum sobre a mesa. Caminhar para o trabalho era uma rotina agradável.


Maria gosta do cheiro da cidade pela amanhã; ela sente um frescor, as pessoas caminham com frio – já vai esquentar, pensam, esfregando as mãos nos braços. Naquela madrugada, uma chuva fina caíra, e Maria sentiu-se feliz, pois gosta mais ainda do cheiro da cidade depois da chuva. “Não há nada como o asfalto molhado”, pensou. A cidade satisfeita com o banho oportuno, limpa como há de ser, livre de incômodos odores, pulsando em concreto. Maria é uma mulher urbana, nasceu em meio à urbe e dela nunca saiu. Não saberia viver sem esse calor, essa emoção, essas cores e esses sons.


Naquele dia Maria sentiu a vida fragmentar-se. Caminhava calmamente, e no trabalho, a rotina tomou conta de seu dia. Durante o dia todo, Maria não teve tempo de pensar no marido bêbado, nos filhos, em problemas financeiros. Não pensava neles não por estar ocupada demais, mas por estar cansada demais. Maria só queria uns dias para si, sem ter que pensar que as coisas vão transformar-se, mas sentir as mudanças. Ao sair do trabalho, Maria decidiu não ir direto para casa, como fazia todos dias. Parou em um bar próximo ao serviço e pediu uma dose de rum. Foram duas ou três: cabisbaixa, Maria pensava em uma liberdade perdida, em sentimentos de futuro já passados e em promessas de sentimentos infinitos. Pagou a conta com uma nota de vinte, ajeitando a manga do vestido, para em seguida levantar-se. Não cambaleava e não mostrava sinais de embriaguez. Ao chegar em casa, Maria encontrou o marido dormindo na mesma posição em que o deixara pela manhã, como se aquele dia – tão pesado! – não tivesse existido. Foi dormir com a sensação de ter sonhado.





roubado de O Diazepam, texto de dezembro de 2008, mas que me lembra o meu eu de hoje.

Graduei-me

TRÊS POR QUATRO: REVISTA TEMÁTICA DE FOTOGRAFIA BRASILEIRA


Esse trabalho foi realizado em memória de meu vovô Hélio Mattos, que no fim desse ano foi morar no céu. Deixo aqui meu beijo sincero, da bonequinha de louça para o bonequinho de barro.

Para sua realização agradeço:

Ao meu ouro de mina: minha mãe e meu pai, por absolutamente tudo.

À irmã querida Mariana Salazar e ao amigo e mestre João Urban, agradeço pelo carinho familiar e a necessária ajuda

Agradeço também a Luiz Carlos Felizardo, por sua generosidade e disposição.

Ao Marcos Beccari e à Giovana Ruaro, pelas ocasionais contribuições.

À Iasa Monique, pela constante companhia e desespero compartilhado.

Aos mestres Mário Messagi Júnior, José Carlos Fernandes, Myrian Del Vecchio, Carlos Rocha,Toni André Scharlau Vieira e Paulo Camargo pela eventual e solícita ajuda.

Ao orientador Osvaldo Santos Lima, por sábias dicas.

Aos amigos Julia Guedes, Chico Marés, por suas revisões providenciais.Também à Renata Ortega, Cecília Pimenta, Dalane dos Santos
e aos “estagiários de todo o mundo”.

Pelo incentivo agradeço também aos colegas da Assessoria de Comunicação da UFPR, ao Dr. Marcelo Robles Isi, ao Fernando Peña e à Lucinha Mion.

Aos amigos e familiares não citados, mas não menos importantes.

E, last but not least, ao João Guilherme por todo amor, carinho, e apoio.


TRECHO:


3.2 Segmentação da segmentação

Não podemos tratar as revistas de fotografia, sem antes detalhar um pouco o conceito de segmentação. Para Mira, a segmentação das revistas é fruto do que David Harvey chama, de modo abrangente, “acumulação flexível”, ou seja, o novo modelo que gradualmente substituiu o fordismo, após a crise do petróleo de 1973. “Os anos de crise ensejariam inovações tecnológicas, financeiras, organizacionais e mercadológicas, todas direcionadas à flexibilização” (MIRA, 2001, p148). Isso é o completo oposto da produção idealizada por Ford, a partir do início do século XX. O fordismo era lento, pesado, estruturado e baseava-se mais em produção para grandes massas, em grande escala. Com a flexibilização, seria possível atender demandas mais específicas.

O processo de segmentação na área de publicações periódicas, porém, só vai ocorrer de forma sistemática a partir dos anos 90, quando há uma enorme aceleração e aumento do número de revistas. “Uma verdadeira avalanche de publicações superlota as bancas. No mercado brasileiro falava-se, em 1997, em pelo menos 1130 títulos diferentes. O mesmo acontece, como se sabe, em vários países do mundo” (MIRA, 2001, p. 213).

Marília Scalzo afirma que os tipos mais comuns de segmentação são dados por gênero, idade, geografia e tema. E dentro desses recortes, é possível ainda observar a “segmentação da segmentação”:

Por exemplo, partindo do público de pais de crianças, é possível fazer revistas para pais, para mães, para mães de bebês, para mães de bebês gêmeos, para mães de bebês gêmeos que moram em São Paulo... É possível estender e afunilar a lista até chegarmos a grupos muito pequenos - e se quisermos ir ao extremo, até chegar a cada indivíduo em particular. (SCALZO, 2003, p. 49)

No universo das revistas pesquisadas, é notável a diversidade de tipos e públicos-alvo e essa nuance se faz notar claramente. Há revistas de fotografia preto e branco (B&W é exemplo); revistas para fotógrafos amadores (como Super Foto Prática); revistas para fotógrafos profissionais (como PDN); revistas que destacam o equipamento fotográfico (como Fotografe Melhor); revistas sobre fotografia como forma de expressão (como a Camera suiça); revistas sobre teoria da fotografia (a acadêmica Imagens é editada na Universidade de Campinas); revistas para colecionadores de fotografia (a Focus americana foca seus esforços nesse tipo de leitor); revistas para empresários do ramo da fotografia (como Fhox ou Photos); etc.

“As revistas têm a capacidade de reafirmar a identidade de grupos de interesses específicos, funcionando muitas vezes como uma espécie de carteirinha de acesso a eles” (SCALZO, 2003). No mundo das revistas de fotografia não é diferente: cada uma delas se estabelece como de interesse de um tipo de leitor, mesmo que o universo amantes-da-fotografia-que-compram-revistas não seja tão grande ou abrangente quanto o de outros gêneros de publicação como as femininas, masculinas ou para adolescentes. Ou mesmo, que não seja comparável a outros mercados de segmentação como revistas de negócios ou esportes. Mesmo com menos interessados, o mercado das revistas de fotografia mostra que a segmentação pode ser a chave para se obter sucesso comercial no mundo das revistas.

Mas é importante que o público a que se dirija uma revista possua potencial de consumo. “Antes de ser mercado, onde estavam as mulheres, os negros e os aposentados? Naturalmente, eles já existiam, mas não haviam expressado sua diferença em relação a outros segmentos.” (MIRA, 2001, p 214)

Além disso, é preciso “entender quais são as tendências que estão surgindo e quais delas podem traduzir-se em novos títulos” (SCALZO, 2003, p.50). Pois, naturalmente, uma publicação precisa ter, além de anunciantes, leitores que a sustentem neste mundo de bancas de revistas abarrotadas de títulos e assinaturas cada vez mais vantajosas ao consumidor.


No dia 09 de dezembro de 2009, graduei-me jornalista. Sem essas firulas de diploma (que só chega no dia 23 de abril), graduei-me verdadeiramente (e com nota 10) ao apresentar diante de banca de avaliação - formada por meu orientador Prof. Ms. Osvaldo Santos Lima e os professores convidados Profa. Dra. Myrian Del Vechio e Prof. Ms. Paulo Henrique Camargo - o trabalho de conclusão de curso Três por Quatro: Revista Temática de Fotografia Brasileira. Obrigada novamente a todos os que me acompanharam nessa lenta e difícil jornada de 2009. E aos que, de longe, torceram por mim. Ainda não sei bem o que farei quando receber meu diploma, mas sei que 2010 prepara surpresas deliciosas, novidades surpreendentes, muita mudança, alegria, prosperidade e novos ares. Tudo necessário.


quarta-feira, setembro 23, 2009

I'm (kinda) back

Para não dizer que este blog morreu completamente, volto à casa para deixar-lhes (esse s é meio duvidoso) um texto-reportagem que apurei e escrevi com minha amiga querida Iasa Monique (do descuido) para uma matéria da faculdade. Também tem um ensaio fotográfico meu. Não é o nosso melhor, né, mas acho que ficou legal e digno desse espaço. Quando eu voltar de uma viagem muito estranha que é o trabalho de conclusão de curso, volto a postar com mais frequencia meus devaneios e desvarios.



no meio da cidade

Poucas são tão curitibanas quanto Paula. Cinza dos pés à cabeça, ilumina-se nas primeiras horas do dia, quando é vista pelo sol. Não tem pressa, Paula vive devagar. Parada no tempo. Pela manhã, tem ares de senhora – e agita-se um pouco durante à tarde, para, à noite, ninguém lembrar que acordou daquele jeito.


A rua Paula Gomes é uma graciosa contradição. Localizada no centro histórico de Curitiba, berço da cidade, fica perto de tudo – Praça Tiradentes, Shopping Mueller, Praça 19 de Dezembro, Largo da Ordem – mas mantém o pacato ritmo de uma Curitiba de antigamente.


Lino de Barros, dono do antigo restaurante Beija-Flor, conta que desde 1972, ano em que abriu seu negócio, nada mudou – mas tudo se transformou. Há 37 anos, não havia shopping, não havia escritórios: o comércio era outro com quitandas, vendas e mercearia. Agora o comércio é dominado pelos brechós o que o “Português”, como Lino é conhecido, acha o fim das redondezas.


Todo sábado, tem feijoada no Beija-Flor. O restaurante fica ali na esquina com a Mateus Leme e, além de servir almoço, reúne seus habitués para as partidas de futebol acompanhadas de cerveja e porçõezinhas. Na década de 70, o restaurante ficava lotado todos os dias da semana – o centro da cidade era repleto de fábricas e era “no” Português que os operários iam comer.


Tanto o tempo era outro que até o sentido da rua era diferente – ao invés de ir do bairro São Francisco para o centro, fazia o caminho contrário. E aí reside o encanto da rua, sutil e carinhosamente percebido por quem está ali todos os dias, mantendo o pequeno e fiel comércio concentrado entre as ruas Duque de Caxias e Mateus Leme: um açougue, duas lojas de costura, três sebos, um restaurante, uma gráfica, alguns escritórios de advocacia, um conservatório musical, uma loja de consertos de eletrodomésticos, um centro de aulas de acordeon (o melhor do Brasil, diz a placa), um curso de manipulação e movimento de coisas perigosas (!), um hotel, uma revistaria, uma loja de venda de máquinas antigas de escrever, onde o dono, João Arley, não cansa de apreciar a paz da vizinhança – que pode mudar mas deixa como herança as mesmas portas, os mesmos estabelecimentos, a mesma identidade de seus paralelepípedos desgastados pelo tempo.


O Açougue Santo Garcia está na Paula há 31 anos. Já teve três donos: o fundador foi Valdemar Armelin, o do meio chamava Santo, daí o nome, e o terceiro é Cláudio Sinon. Ao cortar pequenos pedaços de carne que provavelmente virarão suculentos bifes na mesa da senhora que aguarda o pedido, Cláudio garante conhecer a maioria de seus clientes devido à fidelidade. Eles vêm de todas as partes da cidade como Oscar Salazar, o ‘seu’ Oscar, que morava ali pertinho, na 13 de maio. Com os novos tempos, mudou-se para mais longe, mas não deixou de comprar carne “no Cláudio” que, mesmo para gaúcho como ele, é a melhor picanha da cidade.


Um pouco mais pra cima, lá quando Paula Gomes cruza a Parnaíba, pertinho da Manoel Ribas, as casinhas têm cara simpática: portões decorados, de abrir na fechadura, com formas de flores e folhas e em cores brancas, verdes, marrons. Uma coladinha na outra, enquanto a rua desce em direção ao centro. Aos poucos, vão surgindo pequenos prédios residenciais, coisa de quatro ou cinco andares. A fachada de um deles Lauro Correia da Silva contempla todas as manhãs, quando põe o nariz pra fora da portaria e se dá a varrer as folhas caídas na calçada. Lauro é porteiro de um dos prédios de Paula há doze anos, e há seis meses tem nova companhia para o trabalho matinal: é Edna Santana, zeladora do prédio em frente, que varre a rua seis vezes por semana e sempre às oito da manhã, porque senão “fica parecendo um corredor de folha”.


Vera Lucia, algumas quadras depois, reclama do entardecer de Paula. Diz que é perigoso. O bar em frente à casa de costura de Vera (O Torto, famoso pelas mesas na calçada e os bolinhos fritos) está em férias. Ela desconfia do motivo de descanso alegado pelo dono: para Vera, ele quis é dar um tempo na concentração de bebuns que ficavam por ali espantando a freguesia. Da casa de costura, que precisa ser fechada às 18h no máximo (questão de segurança), Vera avista, vez ou outra, um ou outro bêbado sentado nas calçadas vazias de Paula à noite, ou ouve os assaltos na quadra conseguinte, na Duque de Caxias. Mas isso é mais fim de semana, mesmo, quando o pessoal mal intencionado vem meio embriagado do Largo da Ordem, ela diz. Quando é mais cedo, lá pelas dez, e O Torto tá cheio, é mais tranqüilo e iluminado. O bar, por sinal, é eleito por Dani Ribeiro como um dos mais legais pra ir tomar cerveja. A rua é gostosa, o pessoal fica na calçada, tem sinuca e perto de tudo. Alguma coisa O Torto tem, pra encher de gente daquele jeito.


A marginalidade da Paula não chega a ser um problema crônico, mas incomoda. Para o Cláudio do Açougue, já foi pior quando a região era repleta de pensões. Hoje, para ele, quem traz mais bagunça são mesmo os bares próximos. Dos brexós reclama o Português que acha que só quem vende roupa é ladrão de varal. Daniel Rodrigues e sua mãe tinham acabado de chegar de São Paulo diretamente para a Paula e não fazia uma semana que tinham aberto um Brechó. O objetivo dos dois é “desovar” as roupas antigas e só trabalhar com alta-costura. Entre sedas, paetês e muitos brilhos, ele diz que o preço baixo do aluguel do espaço compensa o perigo de assaltos: a Paula é melhor que outras regiões do centro da cidade. Provavelmente, Lino olhará torto para a loja de Daniel, mas não se preocupa muito porque diz que esse tipo de estabelecimento abre e fecha em um instante. Um ano é o prazo de falência ou troca de proprietário que o atento Português prevê para os espaços da Paula.


Curioso também é o fim da Paula. Ela acaba juntinho da Riachuelo, que é conhecida pela venda de móveis antigos (e, de noite, por suas moças sedutoras). De um lado, o polêmico homem nu e sua esposa observam atentos nossa Paula. Do outro, Louvor Eterno anuncia a placa do estabelecimento auto-intitulado Mercadão Evangélico que vende CDs de música religiosa . Do lado, a Shop Evangélica oferece músicas gravadas pela Shalom Records, além de muita moda para casais, adolescentes e crianças evangélicas.













quarta-feira, março 18, 2009

Revolutionary Road

A book that may change your regard to life. Is the future somewhere else? Is the future for me?

segunda-feira, janeiro 26, 2009

canção

Eu ouvi dizer... que você, assim...
Como quem não quer nada, perguntou por mim...

Agora... logo agora... justo agora...
Eu ouvi você... me dizer que sim...
Mas era silêncio que se ouvia quando dei por mim

(Adriana Calcanhoto)

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Ao novo ano


Esse é o mundo que construí. Com clichês, os pés na grama verde, os olhos no céu azul e duas canções para me lembrar que sonhar é preciso. Porque também de sonhos o meu mundo é feito; indestrutíveis, pairam sempre sobre as escolhas, os atos, as decepções e os sucessos. Argonauta dos sonhos, caminho pelo mundo que construí distribuindo sorrisos, lágrimas, passos, palavras e imagens. Nos últimos 366 dias, a alma pisciana tomou conta de mim, emprestando à vida esse ar brumoso que só o sonhar possui; aquela cara de fotografia antiga, meio desbotada. O ano que começou em meio à lágrimas de pesar transformou-se em mais um para não ser esquecido. Fevereiro é amarelo, maio é azul, julho é de um verde calmo e intenso, setembro é o mais doce e ardente dos vermelhos. Dezembro fecha o ano multicolorido e vibrante (como é a moda da estação, dizem-me as revistas). Não vale a pena rememorar (aqui) os momentos deste meu ano. Vale dizer que entre tristezas, alegrias, viagens, trabalho, estudo, cansaço, estão momentos dos mais especiais e pessoas maravilhosas. A elas (sabem quem são) sou deveras agradecida e espero que sigamos por 2009 afora com esses sorrisos de esperança no rosto.


Como fez a Iasa (e como é tradição) faço minha lista 2009

mais poesia

livros não lidos

trabalhar menos (e ganhar mais)

fotografar o inusitado e o belo

viajar para algum lugar de nome estranho (e para outro continente)

formar-me jornalista

tornar-me jornalista

deixar mais o cabelo ao vento

menos ansiedade

mais coragem

uma vida que inspire arte e expire amor



PS – novidade no mundo dos meus blogs é o Scanning, meu Tumblr. Tumbleblogging é umas das coisas mais divertidas que a internet já inventou.

sábado, novembro 15, 2008

Madrugada

(...)
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
(...)
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final
(...)
Bicho solto
Um cão sem dono
(...)
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

sábado, novembro 08, 2008

“Pluma que o vento vai levando pelo ar”



— Olha lá, Coração: mãos entrelaçadas e a janela molhada. Aspira: aroma de chuva, proeza da natureza. Conta-me um segredo: qual é a cor do teu pulsar. Não chora não, Coração: nem por dor, nem por amor. Ainda não chora pelos infortúnios ou pelos clichês. Olha pro espelho, Coração, olha no meu olho. Diz para mim que está bem aqui, no meu peito, a pulsar. Fala pra mim, Coração, diz que não é verdade que eu não passo de um mero respirar, de um mero estar. Convence-me que a vida não é mero azar. Que lágrimas são essas? Não me diga que são de pesar, Coração. Quero que sejam de felicidade genuína. Como és ingênuo; não há felicidade. Que sorriso lindo.

segunda-feira, outubro 20, 2008

A mim, a você


Acorrentados

Paulo Mendes Campos


Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.


Texto extraído do livro "O Anjo Bêbado", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969, pág. 105.

sábado, outubro 11, 2008

Léxico Particular – Esses Sujeitos Femininos


Essa ansiedade (s.f.) Não tem razão de ser mas é rígida e impiedosa. Retoma velhos hábitos e data de velhos tempos infantis.

Essa concomitância (s.f.) Verbete que une todas as palavras deste léxico. Também presente em alguns momentos da vida em relação a sentimentos alheios.

Essa descompostura (s.f.) Rara palavra, mas marcante. Está em momentos de preferível esquecimento. Ou não.

Essa displicência (s.f.) Faz parte do universo do aquilo-que-poderia-ter-sido. Está muito presente no que chamamos dia-a-dia. Muito comum em relação ao tempo, à arte e ao conhecimento. Requer certo sangue frio.

Essa inconstância (s.f.) Palavra que soa familiar; se alimenta de meus dizeres, de meus escritos, de meu ser. É como um olho que fecha e abre – a transformação. As minhas mãos não sabem o que fazer.

Essa indecisão (s.f.) Presente nos mais variados momentos, do escolher o sabor do chá ao futuro incerto e aos detalhes das palavras. Perpassa ainda os fatos mais relevantes de uma vida.

Essa melancolia (s.f.) A incidência deste termo é sazonal. (Para esclarecimentos, ver: Essa inconstância)

Essa solidão (s.f.) Uma das palavras mais pesadas do mundo das palavras. ‘Solidão’ pesa mais que ‘tempo’ que ‘mundo’ e que ‘verdade’. Só não mais que ‘perdão’.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Turista na minha província



A perspectiva da cidade muda completamente quando se é turista. Nessa condição, tudo tem seu ar mágico: as pombas, os mendigos, os velhos, os telhados, os varais, as calçadas, os ônibus, o trânsito, os táxis, as árvores, as bicicletas, os artistas de rua, as prostitutas, os cachorros e a chuva. Até o céu nublado tem seu charme quando se é forasteiro.

Claro, tudo é absolutamente novo. Nem tanto. Viajo todos os anos ao Recife, já vi e revi todas as suas belas paisagens. Mas sempre que volto, sinto que seus pequenos detalhes são infinitamente mais divertidos que os de minha cidade. Posso argumentar que Curitiba não é exatamente um lugar belo e divertido, o que se torna uma inverdade dolorida quando percebo que me faltam olhos curiosos de turistas para enxergá-la de verdade.

Certo dia, resolvi experimentar. Lembrei-me vagamente de minhas viagens: dos ambulantes do Recife aos taxistas paulistanos, da feira de Caruaru à 42nd Street em New York, da noite no cais recifense aos copos y tapas de Madrid e da serra gaúcha ao bucólico campo português. Ao respirar essas lembranças, tinha a nítida sensação de que fui observadora minuciosa desses lugares, mas que eles são apenas memória. Curitiba é real, é tangível. O mapa não está em punho, está intrincado no cérebro.

Com isso em mente, coloquei meus ‘óculos de turista’ e saí a caminhar pela ‘XV’ de câmara fotográfica em punho, como manda o figurino. Sem idéias preconcebidas, consegui achar bonito o vôo das pombas da Santos Andrade, os mendigos da Riachuelo, os bolivianos gaiteiros, as estátuas vivas e os poetas que amam a lua. Até a campanha política eu apreciei: peguei todos os santinhos. Eu vi tantas coisas bonitas, admiráveis, estupendas. Passei pelo Largo – pedi pra tirarem uma foto minha junto do bebedouro –, entrei na Catedral e fiz compras na Casa China. Depois, um pequeno ‘sightseeing’ pela Rui Barbosa, pela Tiradentes, através da Rua 24 Horas (achei até charmoso ela estar fechada). Então, entrei no tubo e peguei o biarticulado, achando tudo o máximo. Dei uma passadinha no Botânico e fui para casa.

No dia seguinte, fui revelar o filme: estava queimado. Do meu passeio turístico por Curitiba nada sobrou. Ao sair da loja, ali na confusão da Marechal Deodoro pensei: tudo tão banal, que vontade de viajar.


* Crônica produzida para Redação Jornalística III

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Diazepam

Novo projeto de blog, O Diazepam, aliás, vamos parar com essa de projeto. O novo blog O Diazepam une as forças de sete audaciosos estudantes de jornalismo da UFPR, incluindo esta que vos fala. A idéia são postagens diárias, um autor por dia. Não há um tema definido, fala-se o que está no coração: pode ser uma crônica, um desabafo, um texto teórico, uma reclamação, uma reportagem etc etc etc. Eu me chamo sábado, Iasa Monique é domingo sem cara de domingo, Chico Marés é uma ensolarada segunda-feira (Garfield não tem vez). Mari Cioffi é uma doce terça-feira e Amanda Audi faz as quartas-feiras mais agradáveis. O caçula Fábio Pupo empresta sua voz grave às quintas-feiras e Sandoval Poletto seu texto afiado às sextas-feiras. Espera-se que continuemos por muitas semanas.

domingo, outubro 05, 2008

Léxico particular: Languidez



O céu laranja; olhos fechados; rara paz. Instantes até que o silêncio que tem nome volte a agitar, aquietar, agitar, aquietar. O silêncio do céu laranja eu nomeio languidez, achando impossível que a vida seja feita de algo além de poesia.

sábado, setembro 27, 2008

Almas que oscilam; perguntas sem resposta.



– Você jamais seguiu a força da maré.
– É o que faço agora, willingless.
– Prove-me que não me amas.
- Regardes moi dans les yeux.
- Não dizes nada com esses olhos.
- Justiça seja feita.

- Eu quero compreender.
- Além de minhas forças.
- Siga este raciocínio, por favor.
- Olhe para o espelho, por favor.

- Meus passos... titubeio.
- Olhas para trás?
- Para que se preocupar?
- Eu não sou ficção.
- És personagem de minha vida.
- Carne e osso.
- Insegura como num romance.
- Não há incertezas.
- Não chores.

- Agora eu me sinto como um retrato em prata gelatina.
- Noema: “Isso foi.”
- E estou em flou.

Cai o silêncio, “essa substância inescrutável que é a sustança da solidão.”

- Preciso de um conhaque.
- Make it two.

domingo, setembro 14, 2008

Três anedotas

*

Foi um silêncio infinito que durou exatos trinta e cinco segundos: tempo suficiente para tomar uma decisão, hesitar entre as alternativas e, finalmente, optar. Havia quem observasse este conflito dos indecisos – um olhar estático, imóvel e ansioso. Ela, baixou a vista. Então, olhando por cima dos óculos, repetiu as palavras que já ouvira de outras bocas. Certo nervosismo.

*

Conhecia as palavras que ele diria. Não podia, porém, acreditar que elas seriam ditas. O dia, o calor, caminhava – hesitação aparente. Decidiu acalmar-se, água fria, rosto quente. Dois passos e lá encontrou seu destino. – Diga logo, por favor. Chorou por exatas oito horas.

*

Ali, ela traçou o seu destino, sabia com o coração o que diria. Caminhou exatos trinta e oito minutos para encontrá-lo. Calmamente, esperou. Olhares preto-e-branco, movimento. Então, entregou-lhe um livro, com olhar frio – és louca. Nunca mais o viu.



terça-feira, setembro 09, 2008

Alfama e as palavras


As palavras, elas estão aqui ao meu lado, e elas são palavras leves e doces e tímidas. Um dia, elas aparecem.

sábado, setembro 06, 2008

Por que mudar?


Porque a mudança, de alguma maneira, me faz viva. E por que eu mudo (eu tento) a cada instante: sou como o rio. E, como disse antes, ando sem palavras. Quanto menos delas, melhor pra mim.

Mais do mesmo:

As coisas da casa, poema de Marcelo Sandman

1.
Ela agora só pode amar
Com a paixão contida
Da borboleta espetada na placa de isopor

(De vez em quando uma asa estala
e sai voando pela sala
e quer quebrar o abajur.)

2.
Trazia nas mãos pressurosas
O ramo das rosas do arrependimento

E no botão da rosa mais vistosa
A abelha venenosa
Que bulia por dentro

3.
A raiva invadiu a casa
Numa labareda violenta

Crestou tudo!

Agora os dois carregam baldes de água
Pra dentro,
Espionados pelos vizinhos,

Que olham de longe,

Por trás de gelosias engelhadas.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Frases de efeito à sua escolha



Eu ando sem


Eu ando sem palavras.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Crônica da meia-noite

Eu perdi meu raciocínio.

O que é muito comum nos dias de hoje.

- Um Dry Martini, por favor. Não esse, é gin com vermouth e azeitona.

Aquele sentimento de estranheza. O drink é providencial.