sábado, agosto 30, 2008

Dois modos de ver fotografia

Imagem de Ludwig Windstoßer: o experimentalismo do movimento fotoform
Uma das fotos mais famosas da iconografia mundial é Migrant Mother da fotógrafa Dorothea Lange

A menina trabalhadora da fábrica de algodão: Lewis Hine foi um dos precursores da tradição documental

Dois modos de ver fotografia

Até o final de setembro estarão abertas ao público curitibano duas exposições fotográficas: ‘fotografia subjetiva’ A Contribuição Alemã 1948 – 1963 (Casa Andrade Muricy, de 31 de julho a 28 de setembro, entrada franca) e Fotógrafo Norte-Americanos (Espaço Caixa Cultural, de 27 de julho a 26 de setembro, entrada franca). A primeira é uma extensa mostra de imagens produzidas pelo que se consagrou chamar de ‘fotografia subjetiva’ (grafada em minúsculas mesmo, na tipologia Bauhaus) cujo maior mestre foi o alemão Otto Steinert. A segunda é uma coletânea de 33 imagens da fotografia norte-americana do início do século que incluiu obras de Lewis Hine, Paul Strand e diversos fotógrafos da equipe da Farm Security Administration (FSA – Administração da Segurança de Fazendas). Esses fotógrafos foram os precursores do que se costuma chamar de ‘fotografia documental’.

É interessante notar que as duas exposições têm conteúdos que se contrapõe na sua concepção teórica e prática, mas que mostram duas vertentes interessantes da fotografia do século XX.

‘fotografia subjetiva’

A mostra exposta na Casa Andrade Muricy é uma retrospectiva extensa do movimento ‘fotografia subjetiva’. São mais de 150 imagens de expoentes do movimento que teve suas raízes na ‘nova fotografia’ alemã dos anos 20 e na Bauhaus de Walter Gropius. Essas primeiras influências estão marcadas na exposição por nomes como Adolf Lazi, Herbet List, Chargesheimer, Marta Hoepffner e Heiz Hajek-Heinz - chamados de “incentivadores e parceiros do movimento emergente”. A maioria deles foi banida da Alemanha com o regime nazista que classificou suas fotografias como “degeneradas”. São imagens marcadas por simbolismo, experimentos de fotografia de objetos, composições elaboradas e geométricas. É notória a presença da destruição do pós-I guerra e das sombras que caíram sobre a Alemanha durante o período: o preto é intensamente contrastado.

Todas essas características estão presentes com muito mais intensidade na segunda parte da mostra que mostra o movimento vanguardista fotoform que ocorreu após a II Guerra Mundial, de 1949 a 1958. Com um projeto teórico bem estabelecido, o grupo de fotógrafos pretendia enfatizar a criação individual com os recursos da fotografia. Otto Steinert – mentor do movimento que organizou as duas exposições do grupo e criou o termo ‘fotografia subjetiva’ – considerava importante criar imagens que satisfizessem um olhar artisticamente receptivo. A ‘fotografia normal’, ou melhor, a ‘fotografia objetiva’ que visa à utilidade e à representação da realidade não lhe interessava.

Nas fotos do fotoform é comum o uso de recursos como oscilações luminosas, tempos maiores que captam o movimento, a presença do fotógrafo na imagem. As fotos são obscuras e tratam sempre de temas industriais, áridos. A solidão é também recorrente: as pessoas estão quase sempre solitárias. Numa análise simplista, podemos dizer que é visível a presença de traumas pós-guerra e a necessidade de transformar a visão da fotografia publicitária nazista, que exaltava valores como a família, a moral e a superioridade.

Também é importante notar os experimentos inspirados na pintura contemporânea abstrata e surrealista. Imagens em close-up de objetos, dupla exposições. Muitas fotos de metal, máquinas. Mas nada de colagens, como se fazia no anos 20. O objetivo dos fotógrafos do fotoform – dos quais destaco, além de Steinert, Ludwig Windstoßer, Peter Keetman, Toni Scheneiders e Wolfgang Reisewitz – era utilizar todos os recursos possíveis do equipamento fotográfico sem apelar para outras técnicas artísticas.

As fotos de Steinert são objetos ‘inúteis’ no sentido comum da palavra. São como as gravuras, as pinturas. São retratos conceituais (a bailarina sentada em uma cadeira moderna é maravilhosa), fotos de árvores em movimento, fábricas sombrias etc. Professor que era, Steinert ensinou muitos discípulos ao longo de sua vida, cujo trabalho pode ser visto na quarta parte da exposição, onde há imagens de diversos fotógrafos do mundo todo por ele influenciados. A quinta parte é um prólogo que fala de tendências contemporâneas inspiradas pela ‘fotografia subjetiva’, cujos expoentes são Robert Häusser e Stefan Moses.

A tradição documental

Já na Caixa Cultura, pode-se ver um outro tipo de fotografia. São imagens dos primórdios da fotografia documental no mundo. A exposição tem curadoria de João Kulcsár, que teve acesso a negativos do Governo Americano para fazer as cópias. Em prata gelatina, trazem visível na ampliação o desgaste dos anos passados

Começa-se pelos mestres Paul Strand e Alfred Stieglitz e Lewis Hine. Os três iniciaram na América do Norte a tradição documental, que visa mostrar a realidade – com preocupações estéticas – e criar um documento historio que demonstre como era determinada sociedade, vivência ou povo. Estão presentes na mostra ícones como O terminal da Estação de Cavalos de Stieglitz e Blind Woman de Strand. Além disso, algumas das imagens mais famosas que Hine fez na luta pelo fim do trabalho infantil (da qual foi ativo militante) como os meninos carvoeiros e a menina na fábrica de algodão. Uma foto que destoa bastante da proposta da exposição é um nu captado por Stieglitz à la Man Ray.

Logo em seguida (e com falha da curadoria, não citado no texto de apresentação da exposição) estão as fotografias de um grupo de fotógrafo que no início do século trabalhou para a Farm Security Administration retratando as agruras da fome pós-1929, quando a Bolsa de New York quebrou. Parte do programa do New Deal de Frank Delano Roosevelt, a FSA criou uma nova estética de fotografia documental. Seus expoentes Dorothea Lange, Walker Evans, Arthur Rothstein, Ben Shahn, Russel Lee, Marion Wollcott e Gordon Parks mostraram à ‘América’ as agruras do campo, com seus imigrantes pobres e famintos.

Destaque para Lange e Evans. Ela com sua Migrant Mother (Mãe Imigrante), que mereceu destaque especial do curador. Uma das fotografias mais famosas de todos os tempos, mostra uma mãe e três crianças: a face cansada demonstra o sofrimento do viver. O retrato é muito emocionante e foi peça chave na conscientização do governo americano para tomar uma atitude. Além da clássica foto, há mais quatro cliques da série e um pequeno relato da fotógrafa. Já em Walker Evans podemos ver as paisagens urbanas de oficinas, carros Ford antigos e vendedores de frutas. Na obra do autor, são mais raros os personagens, mas é sempre muito forte a presença humana nas paisagens.

Pequenas observações

Sem fazer comparações, pois isso seria um contra-senso, visto que são mostras de fotografias feitas em épocas diferentes, em países diferentes e em contextos sociais diferentes, traço uma observação.

As fotografias de Os fotógrafos Norte-Americanos vêm carregadas de um contexto social muito grande. Em sua maioria, são fotografias tiradas com um objetivo claro de mostrar problemas sociais na esperança de amenizá-los. A preocupação estética é grande, mas ela é voltada para a utilidade da imagem. Quanto mais forte e bela, mais chamará atenção.

Já em ‘fotografia subjetiva’ as imagens tem o propósito único de ser arte. Aliás, as imagens não tem propósito, entrando na discussão da ‘inutilidade’ da arte. São imagens estéticas, calculadas e belas. A ‘fotografia subjetiva’ não objetiva a realidade (isso é claro em seu nome) ela foge dela, e entra no universo único do fotógrafo-artista.

A discussão entre fotógrafos documentaristas e conceituais pode ser infinita. Conferir as duas mostras, porém, pode trazer alguns esclarecimentos e a vivência em meio à prata-gelatina, e o aprendizado de que todas as correntes têm seu imenso valor estético, histórico e, por que não, mágico.


obs - essa resenha/pesquisa eu fiz para o Comunicação, jornal laboratório da UFPR, em que sou editora de cultura

quinta-feira, agosto 28, 2008

Sob o 'Céu de Lisboa'

Eu tentei resenhar O Céu de Lisboa (1994) de Wim Wenders, mas não consegui com propriedade. Um filme dedicado a Fellini, com a presença de Madredeus, poesias de Fernando Pessoa e a beleza do bairro da Alfama, é demais pra mim. O roteiro e a fotografia, eu nem comento. Cheguei a conclusão que eu moraria em O Céu de Lisboa. É isso.




Alfama (Pedro Ayres Magalhães / Rodrigo Leão)

Agora,/que lembro, /As horas ao longo do tempo;
Desejo,/ voltar,/ voltar a ti,/ desejo te encontrar;
Esquecida, / em cada dia que passa, /nunca mais revi a graça /dos teus olhos /que amei.
Má sorte, foi amor que não retive, / e se calhar distraí-me... /- Qualquer coisa que encontrei.

sexta-feira, agosto 22, 2008

100 anos de Cartier-Bresson!


"L'appareil photographique est pour moi un carnet de croquis, l'instrument de l'intuition et de la spontanéité, le maître de l'instant qui, en termes visuels, questionne et décide à la fois. Pour « signifier » le monde, il faut se sentir impliqué dans ce que l'on découpe à travers le viseur. Cette attitude exige de la concentration, de la sensibilité, un sens de la géométrie. C'est par une économie de moyens et surtout un oubli de soi-même que l'on arrive à la simplicité d'expression.
Photographier : c'est retenir son souffle quand toutes nos facultés convergent pour capter la réalité fuyante ; c'est alors que la saisie d'une image est une grande joie physique et intellectuelle.
Photographier : c'est dans un même instant et en une fraction de seconde reconnaître un fait et l'organisation rigoureuse de formes perçues visuellement qui expriment et signifient ce fait.
C'est mettre sur la même ligne de mire la tête, l'œil et le cœur. C'est une façon de vivre."

Parabéns, Cartier-Bresson. Hoje, se vivo, faria 100 anos de leiquinha em punho.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Aqueles versos.


"Trago dentro do meu coração
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(...)

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
(...)
Meu ser elástico, mola, trepidação"

Trechos de Passagem das Horas, 22 de maio de 1916, Álvaro de Campos

sábado, agosto 16, 2008

Palavras.



Noite fria, três goles de vodka; quero escrever palavras que te toquem. Prosas gélidas como ferro; versos quentes feito brasas. Duas metáforas nuas, cruas, levemente doces, sairão da minha boca. Tua nuca arrepia, teus olhos curiosos questionam coisas sem resposta. Quatro sussurros literários, alguns impropérios censuráveis. Eu quero palavras que busquem outra dimensão, que encontrem aquele instante indeciso. Chega dessa tensão: eu quero palavras cheias de graça, eu quero dominá-las. A vodka é pouca. As palavras não chegam. Os olhos rodeiam o entorno atrás de termos certos inexistentes, meu corpo treme. Não há nada mais real que uma noite fria. Aliás, há. Na busca infrutífera por palavras, deitarei-me, em busca de respostas, do sono e de ti, que não estás aqui

quarta-feira, agosto 13, 2008

Felicidade de Jobim, com seus devidos cortes.


A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

* Em breve: relatos de Portugal.

sábado, julho 26, 2008


"X - Mar Portuguez

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram.
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu."

Fernando Pessoa


Pra mim, muito fado, muitas lágrimas. Vou buscar minhas raízes, minha verdadeira alma portuguesa e minha boa dosagem de lirismo. A musa do meu fado e minha mãe gentil.
Mas nem só no lirismo português estou enraizada: vou definitivamente me encontrar nos vermelhos de Espanha. Até mais ver, pois, pois.

quinta-feira, julho 24, 2008

Reviravolta


Quem sabe uma voz rouca e dois olhos. Uma expressão de liberdade. E um verde infinito. Seriam mesmo verdes? A cor não importa – e sim o infinito e aquela liberdade
Porque eu estou cansada da indecisão, dos sabores amargos, da seriedade. Je suis fatiguée com a possível rotina, com o futuro improvável, com sonhos que se dissolvem. E essa vida que gira e todo dia vira outra vida? Eu quero mais mudança - eu quero montanha-russa. Da lagarta à borboleta a todo instante. Eu quero essa agonia do desconhecimento, unkown lands. Seguir a descobrir, nutrindo-me paixão, realização, decepção, desejo. Eu quero andar pela vereda sem saber
do sim,
do não,
do amor.
Carpe Momentum.
E já não falo mais de vozes, nem de olhos, nem de mim mesma.

terça-feira, julho 15, 2008

Post número 100


"(...)Se você quiser eu danço com você
Meu nome é nuvem, pó, poeira, movimento
O meu nome é nuvem

Ventania, flor de vento, madrugada

Eu danço com você o que você dançar


Se você deixar o coração bater sem medo"

O meu coração bate leve e sem medo nesse instante. Caminhar pela minha estrada parece estar mais simples (a simplicidade é minha razão) e as veredas menos bifurcadas.
As portas: abertas.

sexta-feira, julho 04, 2008

Antonina!

Estou descendo para o litoral, vou cobrir o festival de Antonina para a Proec. Estranho esse momento em que você se toca: - Ih, virei fotógrafa.
Será verdade?
Acho que haverá atualizações nesse site e no Co:::unicação

quinta-feira, julho 03, 2008

My brain and my bones don't want to take this anymore!!



Mouthwash
Kate Nash

This is my face, covered in freckles, with the occasional spot and some veins. This is my body covered in skin and not all of it you can see. And, this, is my mind, it goes over and over the same old lines. And, this, is my brain, its torturous analytical thoughts make me go insane. And I use mouthwash. Sometimes I floss. I got a family. And I drink cups of tea. I've got nostalgic pavements. I've got familiar faces. I've got mixed-up memories. And I've got favorite places. And I'm singing "oh oh" on a Friday night! And I hope everything's gonna be alright! This is my face. I've got a thousand opinions and not the time to explain. And this is my body, and no matter how you try and disable it,yes, I'll still be here And, this, is my mind and although you try to infringe, you cannot confine. And, this, is my brain, and even if you try and hold me back there's nothing that you can gain

quarta-feira, julho 02, 2008

O desejo secreto da cidade


Fui à praça Tirandentes para ver a grande descoberta arqueológica da cidade de Curitiba. Não que eu esperasse um dinossauro, nem um homem de neanderthal, mas qual foi a minha surpresa ao descobrir que é apenas (e apenas) uma calçada velha - ela não difere em muito das nossas atuais ou das do largo da ordem. Mas a surpresa continua: embaixo do vidro vedado, no meio da preciosidade, um pacote de club social. Havia engenheiros próximo à obra e fui lá falar com eles. - Viu, moço, tem um pacote de bolacha ali embaixo que eu acho que não faz parte da atração. - Ah, ok, vou averiguar. Conclusão: tudo que Curitiba quer em seu subsolo é um clube social.

Fonte da Foto: Jornale

terça-feira, julho 01, 2008

Levantando a poeira da vida...


Ontem, fui à Terceira Parada da Diversidade LGBT de Curitiba e fotografei, e fotografei, tava lindo. Dá para conferir, na Galeria Co:::unicação e no meu Flickr
Se joga, bee!

quinta-feira, junho 26, 2008

Au Revoir Simone e Ricardo Reis


Hurricanes, Au Revoir Simone

In a world of make-believe
Talks a lot, but can't you see
It means more to you than me

Think before you speculate
Take the fear that you create
Don't assume we're so afraid of them

And you say na na na...

If you stop and disappear
Doesn't sound I watch you here
When dreaming takes you where you want to be
Don't follow the status quo
Picture where you'd like to go
Take your time but always know you're there

This message is for all the people
That people who are always waiting

*

Nos altos ramos de árvores frondosas
O vento faz um rumor frio e alto,
Nesta floresta, em este som me perco
E sozinho medito.

Assim no mundo, acima do que sinto,
Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma,
E nada tem sentido - nem a alma
Com que penso sozinho.

26-04-1298, Odes de Ricardo Reis

quinta-feira, junho 19, 2008

Divagações tem mesmo que ser curtas.


Hoje, meditei o dia todo com xícaras de campim-cidreira, boldo do chile, twinings four red fruits (uma das maravilhas da vida). E, de repente assim, veio a vontade de sentir aquele turbilhão de emoções. E, assim, como quem pisca o olho, a vida ficou mais leve. Um instante assim como esse instante, salva um dia, uma semana! E agora posso juntar àquela constatação maravilhosa: merecidas férias!

terça-feira, junho 17, 2008

Trabalhinho de Música: Análise de Ai que saudade da Amélia! baseada nas Mitologias de Roland Barthes


Ai que saudade da Amélia!
Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Nem vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza

Tudo que você vê você quer

Ai, meu Deus, que saudade da Amélia

Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado

E achava bonito não ter o que comer

E quando me via contrariado

Dizia: Meu filho, que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade

Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade

Letra de Mário Lago, música de Ataulfo Alves, Gravada pela primeira vez por Ataulfo e suas
Pastoras, em 27 de novembro de 1941

“Exijo a possibilidade de viver plenamente
a contradição de minha época, que pode fazer
de um sarcasmo a condição da verdade.”
Roland Barthes

Seguindo a lógica da canção, poderíamos realizar aqui uma análise baseada nas questões de gênero. Contudo, realizarei uma análise baseada nas questões colocadas por Roland Barthes no livro Mitologias em que ele constrói um novo tipo de análise semiológica. A análise, como coloca Barthes, terá um tom artificial, ascético. Após essas duas considerações, continuemos.
Temos aqui o já construído mito de Amélia, a mulher de verdade. Desde 1941 essa música é tocada no Brasil, ora com tom irônico, ora reiterando valores machistas. Ao que parece, ela foi escrita com esse propósito. Em 1941 iniciava-se movimentos de libertação feminina que culminaram nos grandes movimentos dos anos 60.
A canção fala de um homem que já havia sido casado com uma mulher chamada Amélia, mas que por algum motivo (provavelmente falecimento, já que na época não havia divórcio, e Amélia era perfeita demais para ser deixada) vem a se casar com uma outra mulher. Dessa vez, ela faz “exigências”, não sabe o que é “consciência” (e provavelmente fala muito sobre isso), só “pensa em luxo e riqueza” e não enxerga que seu marido é um “pobre rapaz”. Amélia, contudo, passava fome ao lado dele, sem reclamar, ela achava “até bonito não ter o que comer”. Amélia era resignada, não possuía nenhuma vaidade, e por isso, para o narrador, era uma “mulher de verdade”. Como fazemos aqui uma análise semiológica, onde um signo é um sistema binário formado por significante e significado, é de se esperar que a “outra” é uma mulher falsa, mentirosa.
Amélia é um mito na sociedade brasileira. Até hoje, quando quer se falar de uma mulher forte, que cuida do lar, dos filhos, refere-se à ela como “uma Amélia”. Outra possível significação do termo “uma Amélia” (daí já mais posterior, após o movimento de libertação feminina) é “uma ingênua”, “uma boba”, uma mulher fácil de ser passada para trás.
Aqui, o sentido é a história do Marido de Amélia, que afirma que ela passava fome ao seu lado sem reclamar e que não possuía vaidades. Esse sentido apresenta a forma que é “Amélia que era mulher de verdade”. O fato de ser o ex-Marido de Amélia que conta essa história distancia-nos da “verdadeira” história dessa mulher. Teria Amélia sofrido em silêncio? Teria Amélia morrido, ido embora? O mito de Amélia é o de uma mulher que realmente não tem emoção nenhuma e isso é devido ao fato de sua história ser contada por um ex-marido (talvez arrependido?). Talvez o Marido de Amélia só a valorize agora, com a presença da segunda esposa. O único momento em que é dada voz ao mito Amélia é o verso “Dizia: Meu filho, que se há de fazer”, em que Amélia possui um tom de resignação, até maternal, provavelmente provindo de sofrimento, fome e tristeza, e não, como afirma o ex-marido, de sua mínima vaidade ou do fato de que ela achava bonito passar fome. Alguém pode afirmar que ou Amélia sofria em silêncio ou estava resignada.
Contudo, não é o caso analisarmos a possível vida do personagem Amélia, e sim a forma e sentido com que seu mito nos é apresentado e a significação que ele denota. Muitas vezes Amélia foi cantada apenas como um “samba bonito”, o que o torna uma canção literal, livre de interpretações e oculta a intenção do mito. Na pretensão de tomar o lugar do mitólogo, deve-se isolar a forma ou o sentido a fim de procurar a significação. Ela não acompanha o signo que é completamente arbitrário, a significação, para Roland Barthes, nunca é totalmente arbitrária, em parte ela é sempre motivada e contém uma parte da analogia.
O mito de Amélia, portanto, designa o mito da “mulher ideal” para um marido brasileiro e pobre. Uma mulher que não reclama, não sonha e não possui vaidade. O único propósito do mito Amélia é cuidar da casa e afagar seu marido com palavras dóceis quando ele se vê contrariado. Há na música o que Amélia não deve fazer explícito em outro mito: o da contra-Amélia. Amélia não pode exigir nada, não pode ter (e nem saber) o que é consciência e não deve pensar em luxos e riquezas. Contra-Amélia não é considerada pelo Marido um exemplo digno de mulher. Somente Amélia “é que era mulher”.
O Marido de “Ai que saudade da Amélia”, é um “pobre rapaz” mas ele não é nem proletário nem burguês. Contudo, o ideal de vida do casamento, da esposa em casa a espera do marido, é um ideal burguês. O marido, então, é o Homem Eterno, habitante do universo dos fatos burgueses. Porque, segundo Barthes, é quando penetra nas classes intermediárias que os ideais burgueses (tal qual o mito de Amélia) se tornam verdades diluídas no imaginário.

“Essa aliança vai se reforçando com o tempo e se transformando pouco a pouco em simbiose. Tomadas de consciência provisórias podem acontecer, mas a ideologia comum já não é posta em questão: uma mesma camada “natural” cobre todas as representações “nacionais”: o grande casamento burguês, fruto de um rito de classe (a apresentação e o consumo das riquezas) , não pode ter nenhuma relação com o estatuto econômico dos pequeno-burgueses , mas, por meio da imprensa, das atualidades e da Literatura, transformou-se, pouco a pouco, na norma, se não vivida, pelo menos sonhada do casal pequeno-burguês. A burguesia absorve ininterruptamente na sua ideologia toda uma humanidade que não possui um estatuto profundo e o que só pode vivê-lo no imaginário, isto é, no empobrecimento da consciência. Expandindo as suas representações graças a todo um catálogo de imagens coletivas para o uso Pequeno-burguês, a burguesia consagra a indiferenciação ilusória das classes sociais (...)” (Barthes, 1970)

Aí, então, encontro um terceiro mito na canção: a mulher pequeno-burguesa. Colocada nas devidas proporções do caso brasileiro (que difere muito do francês) A contra-Amélia quer ter um padrão de vida burguês e seu marido não pode oferecê-lo. A visão de mundo dela é exigente e, segundo o Marido – é bom lembrar que os mitos da canção são construídos segundo a visão dele - , ela deseja “luxo e riqueza”. Aí está o paradoxo da indiferenciação das classes sociais: Contra-Amélia quer ser burguesa mas não pode; Marido quer um casamento burguês mas não quer uma mulher burguesa. Ele quer a figura mítica da “mulher do proletário”, que nada quer, nada pede, nada exige.
Para concluir, Amélia é um caso de mito deslocado. Quando foi escrita, representava um ideal. Atualmente, representa outro. O mito continua tendo força, porém, outra força. O mito, antes reduzido ao ideal vigente, hoje está circunscrito a um contra-ideal: a mulher não deve ser Amélia se não quiser ser considerada ingênua. Tampouco, deve ser Contra-Amélia. O novo mito da “mulher ideal”, apresentado nas revistas como Cláudia, é o mito da mulher “independente sem deixar de ser mulher”. Mas esse não é um mito a ser discutido nesse trabalho.
Resumindo: o significante do mito “Amélia” é que ela"era uma mulher de verdade”. O significado, que Amélia (que não reclama e não tem vaidade) era o Ideal de mulher para o homem em 1941. Entrando no campo da significação; o “produtor de mitos” de Barthes vê (focaliza, para usar o termo do autor) Amélia como o símbolo da “mulher de verdade”. Para o “mitólogo” de Barthes, Amélia é o álibi
do Marido para considerá-la “mulher de verdade”. Já para o “leitor do mito”, Amélia é a própria presença da “mulher de verdade”. Para o autor, a primeira focalização é cínica, a segunda desmistificadora e a terceira é dinâmica, ela faz com que o leitor viva o mito como uma história simultaneamente verdadeira e irreal.
Barthes afirma que o que faz com que o leitor consuma o mito inocentemente é o fato de não enxergá-lo como um sistema semiológico: um signo formado por significante e significado (no caso de Barthes, substituir signo por significação). Para o leitor, é um sistema indutivo: há apenas uma equivalência, é uma relação natural. Nas palavras de Barthes: “(...) O sistema semiológico é um sistema de valores; ora, o consumidor do mito considera a significação como um sistema de fatos: o mito é lido como um sistema fatual, quando é apenas um sistema semiológico.”

Referência Bibliográfica
BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro, Difel, 2007.

sábado, junho 14, 2008

I (really) can watch the sunset on my own or a bunch of idiomatic expressions


Short Story:

I fell for you and then I fell in love, and then I fell apart, and then I fell back on you, and then we fell out, and now I try to fall back, and I think I fell for myself again.
So much to do. So much to think. So much to feel.
And now, in instead of falling, I jump.

sexta-feira, junho 13, 2008

The Horror... The Horror


"And suddenly he'll grab you, and he'll throw you in a corner, and he'll say, 'do you know that 'if' is the middle word in 'life'?'"
Photojournalist sobre Kurtz em Apocalypse Now. Amo.

Ps - Olha isso aqui, que divertido! =) Eles me ligaram!

quinta-feira, junho 12, 2008

Cecil Beaton & Elliott Smith



got bitten fingernails and a head full of the past
and everybody's gone at last
a sweet sweet smile that's fading fast
'cause everybody's gone at last

and you don't get upset about it
no not anymore
there's nothing wrong
that wasn't wrong before

had a second alone with a chance let pass
and everybody's gone at last

well I hope you're not waiting
waiting around for me
because I'm not going anywhere, obviously

got a broken heart and your name on my cast
and everybody's gone at last
everybody's gone at last

segunda-feira, junho 09, 2008

Palavras desconexas

ela filosofa de faz-de-conta, ouvindo o mestre repleto de verdades. ela está tímida, mas não pensa em ninguém. pensa em atitudes que não tomaria, só o pensar é suficientemente ousado. na boca, um sorriso há tempos guardado.

E formula, logicamente:

ruim é “pisar em ovos”; é presumir o sentimento alheio; é sentir aquele doer por mais uma vez; é olhar pra trás e ver pouca coisa feita.

bom é chão concreto; é silêncio pra escutar o que se passa dentro de mim, chama-se paz de espírito; é sentir aquele redemoinho de anseios novamente; ; é olhar pra frente e ver muita coisa
por fazer.