sábado, março 01, 2008

A "auto-ajuda" do Instante Decisivo

"Alguém entra repentinamente no seu campo de visão. Você começa a seguir essa pessoa através do visor da câmara. Você espera, espera, e finalmente aperta o disparador - e sai com a sensação - embora não saiba exatamente por quê - de que realmente pegou alguma coisa".
Henri-Cartier Bresson no ensaio “O Instante Decisivo”


Henri Cartier-Bresson, grande fotógrafo francês, gostava de fotografar com uma câmara Leica, com uma objetiva 50 mm. Um bom campo de visão, lentes cristalinas – as melhores que há – a praticidade do filme 35mm e o límpido visor telemétrico fazem dela uma câmara praticamente perfeita. Contudo, a escolha de Bresson tinha muito a ver também com aparência: a Leica é pequenina, tem um design simples, é uma câmara discreta. Com ela, ele podia sair pelo mundo e clicar sem ser notado, sem gerar frisson, interferindo o mínimo na cena, como era desejo dele.
Algo inesperado, um instante único, uma combinação de sombras, luzes, rostos. Uma pequena confusão, um vulto a passar, uma melancólica caminhada, uma cena de amor, amizade, devastação, solidão, degradação. O mendigo olha para o gato no beco, Sartre fuma um cachimbo, o homem olha através do vidro da janela do restaurante pensando - quem sabe! - em tempos antigos. Cenas que duram minutos, segundos, décimos, milésimos de segundo. E que, com sua Leica, Bresson capturava com os pequenos tempos do obturador.
A foto que ilustra esse texto mostra um desses instantes. As pessoas que dela fazem parte – somam cinco – formam um jogo geométrico que só um fotografo de olhar preciso e sensível como o de Cartier-Bresson conseguiria enxergar. A intrincada construção torna-se leve com a presença dos elementos nos exatos locais onde estão colocados, nem um milímetro a mais, nem um a menos, o que o fotógrafo mesmo chama de “equilíbrio imóvel”. A impressão que tenho é a de que ele anteviu a direção para que seguiam aquelas pessoas e aguardou o instante único em que, ao olhar dele, as pessoas estariam na localização perfeita para uma boa foto. E isso é o “instante decisivo”.
O momento da fotografia – clicada em Istambul no ano de 1965 - durou um tempo minúsculo mas se fixou para sempre no negativo preto-e-branco colocado dentro da Leica. E assim por diante, foi fixado no papel dentro de um laboratório, pendurado na parede, impresso em livros, catálogos, digitalizado. Hoje com um clique (de milésimos de segundo também) a encontro no google. Uma específica escolha de abertura, tempo, enquadramento, luz e, principalmente, a escolha do momento do clique fez de uma foto um clássico instantâneo.
O interessante nesta reflexão que Cartier-Bresson fez da fotografia é que ela vale para todos os setores da vida. As escolhas que fazemos, os caminhos que tomamos, as coisas que falamos podem mudar o curso de nossas histórias. São resultados irrevogáveis como as manchas que a luz provoca na prata do filme. A vida está repleta de instantes decisivos, impossíveis de se apagar. Devemos aproveitá-los, apreciá-los e refletir sobre eles o tempo todo. Contudo, como o próprio Bresson afirma, no ensaio, não podemos só pensar na composição, digo, nas conseqüências. Devemos deixar a intuição nos dizer o que fazer, para analisar tudo depois, com calma, no escuro do laboratório, ou melhor, na quietude de nossas mentes.

Ah! Um ensaio fotográfico que fiz foi publicado no Comunicação On-line. Confira aqui.

Um comentário:

Anônimo disse...

Tinha deixado uma mensagem lá quando você explicou porque gosta do cinema italiano. mas ficou em dezembro e acho que você não vai voltar lá. Então resolvi repetir aqui, já que achei essa reflexão sobre a fotografia bem próximas de alguns comentários de cineastas sobre o que eles procuram quando olham o mundo através da lente da câmera.

O cinema italiano é simplesmente incontornável!

Atualmente, estou no meu momento Antonioni. Mas tenho que admitir que todos os meus momentos estão contidos num grande momento Fellini que não termina nunca. Modesta Sugestão: "As Tentações do Dr. Antônio"; contido na coletânea Boccaccio '70.

Um abraço
Roberto Acioli de Oliveira
[CINEMA ITALIANO: http://cinemaitalianorao.blogspot.com]