segunda-feira, abril 28, 2008

Humor: Filosofia da Linguagem ou Divagações de Segunda à Noite

Bertrand Russel, em seu livro A Introdução à Filosofia Matemática, capítulo 16, Descrições

"Chegamos agora ao principal tema do presente capítulo, a saber, a definição da palavra o. Um ponto muito importante sobre a definição de "uma tal coisa" (a so-and-so) aplica-se igualmente a "a tal coisa" (the so-and-so); a definição a ser procurada é uma definição de proposições em que essa expressão ocorre, não uma definição da expressão em si mesma, isoladamente. No caso de "uma tal coisa", isso é bastante óbvio: ninguém poderia supor que "um homem" fosse um objeto definido, que poderia ser definido por si mesmo. Sócrates é um homem, Platão é um homem, Aristóteles é um homem, mas não podemos inferir que "um homem" significa o mesmo que "Sócrates" significa, e também o mesmo que "Platão" significa e também o que "Aristóteles" significa, pois esses três nomes têm diferentes significados. No entando, quando tivermos enumerado todos os homens no mundo, não terá sobrado nada de que possamos dizer: "Esse é um homem, e não só isso, mas é O "um homem", a entidade quintessencial que é apenas um homem indefinido ser ser ninguém em particular." Fica, portanto, bastante claro que tudo que há no mundo é definido: se há um homem é um homem definido e não qualquer outro. Logo, não é possível econtrar no mundo uma entidade como "um homem" em contraposição a homens específicos. E assim é natural que não definamos a expressão "um homem" em si mesma, mas somente as proposições em que ela ocorre (...)."

sábado, abril 26, 2008

Deseo do Jorge Drexler


Yo soy, tan sólo
uno de los dos polos;
de esta historia, la mitad.

Apenas medio elenco estable;
una de las dos variables
en esta polaridad:

más y menos,
y en el otro extremo
de esa línea, estás tú,

mi tormento,
mi fabuloso complemento,
mi fuente de salud.

Deseo
mire donde mire, te veo
mire donde mire, te veo
mire donde mire, te veo….

(...)

quarta-feira, abril 23, 2008

Ficção Azul


O caminhar era um fluxo descontínuo de movimentos. Os cabelos para um lado, as mãos para o outro, quadris para um lado, mas o olho diretamente para o chão. E vice-versa. Mas o olho para o chão, sempre para o chão. Um olhar triste melancólico. Le ciel ètait bleu. E aquela moça dourada caminhava olhando para o chão. Um mosaico intricado de pretos e brancos, pequenas pedrinhas que quando chove fazem escorregar, alternando cores, desenhos. Chama petit pavé, lhe disseram um dia. Ela não ligou muito por que, naquele dia, o céu estava azul e você sabe como algumas moças sem importam por demais com a cor do céu, a forma das nuvens e o jeito das estrelas. Ela mesma fica mais triste do que hoje quando o céu está branco como papel: aquele chiaro scuro, ausência de sombras, tristesse. As cores não são verdadeiras cores, o mundo tem um tom sarcástico de falsidade. Em dias como hoje com céu azul, daquele azul que faz os prédios parecerem colagem de criança em cartolina, destacados, marcados... Em dias como hoje (e, faça-se justiça, na maioria dos dias) ela normalmente reflete os raios do sol. Mas hoje, sem nenhum motivo aparente, a moça sonhou com algum mal, acordou com o sol, mas não abriu direito os olhos. Acostumada com o sorriso fácil no rosto, hoje a moça se fechou e até chorou com a TV, como a mais boba das moças. “Coisas de moça”, dizem por aí, de “pisciana instável” dizem outros. Vai saber! Quando, à noite, colocou a cabeça no travesseiro, pensou séria, a testa franzida, “amanhã o céu estará novamente azul de brigadeiro (brigadeiros não são azuis...) e esses olhos que miram as pedras do chão voltarão a sorrir”. Dormiu.

terça-feira, abril 22, 2008

I'm a blank (but happy) canvas


Bastam duas linhas. Eu ficaria satisfeita com duas linhas de algum bom pensamento, uma sacada. Mas aqui já se vão duas delas sem nenhuma relevância ou interesse. Três delas se formam e eu ainda não lhe disse nada do que eu quero falar ou do que você quer ouvir. Termino essa quinta linha pensando que a inspiração podia chegar lá pela décima que, com isso, eu talvez arrastasse uma ou duas pessoas até lá, em um quadro otimista. Mas hoje ela está longe, se perdeu na minha embriaguez, no bom jazz ou nessa luz da tela em branco, agora cheia de vazio. Um vazio que ocupou nove linhas. Quanto desperdício! E acaba na décima, por favor.

quarta-feira, abril 02, 2008

Diane Arbus por Sontag


"A autoridade das fotografias de Arbus origina-se do contraste existente entre o tema dilacerante que focalizam e a atenção objetiva e serena que revelam. Tal capacidade de prestar atenção - a atenção que presta o fotógrafo é a que a pessoa que posa presta no momento de posar - cria a teatralidade moral dos retratos objetivos e contemplativos de Arbus. Em vez de espionar as pessoas estranhas e os párias, e fotografá-los sem que percebessem, Arbus achegava-se a eles, ganhava-lhes a confiança e assim lograva que posassem para ela com a mesma paciência e imobilidade com que um graúdo vitoriano se deixava retratar no estúdio de Julia Margaret Cameron. Grande parte do mistério das fotografias de Arbus reside no que elas podem sugerir-nos acerca da reação dos seus personagens, depois que esses consentiram em deixar-se fotografar. Será que se vêem assim? - pergunta-se o leitor. Será que imagino o quanto são grotescos? Aparentemente não.
O tema das fotografias de Arbus é, tomando emprestada a classificação de Hegel, a "consciência infeliz". A maioria dos personagens do Grand Guignol de Arbus entretanto parece não se dar conta da sua feiúra. Arbus capta as pessoas nos graus diversos da sua relação inconsciente e desprevenida com o sofrimento e a feiúra. Isso necessariamente limita qualquer tipo de horror que ela possa ter sido levada a fotografar: pois aquela relação exclui os sofredores que presumivelmente têm consciência de seu sofrimento, tais como as vítimas de acidentes, das guerras, da fome e das perseguiçoes políticas. Arbus jamais fotografaria um acidente ou um acontecimento que violentasse a vida; preferiu especializar-se nos fracassos pessoais , captados em câmara lenta, os quais, em sua maioria, já se vinham manifestando em seus personagens desde que nasceram"


Susan Sontag, em Sobre a Fotografia, 2a edição da Arbor, p. 35 - Queria tanto esse livro no idioma original.

Sei que a foto não tem a ver com o texto, mas eu acho ela muito muito forte.

Tenho um facínio pela obra dessa mulher de biografia tão intrigante. Assisti recentemente ao filme A Pele, inspirado na vida de Diane Arbus (se pronuncia /Díene, sabia?) e achei uma grande maluquice. A produção é legal, os atores são bons, gosto muito da Nicole Kidman quando faz papéis de mulheres misteriosas e silenciosas. E a película é bem bonita, e recria, em parte, o universo fantástico da fotógrafa. É legal ter a experiência visual do sentimento de libertação que Arbus tem quando começar seu trabalho de fotografia. Além disso, é muito interessante analisar a estranheza que ela possuia em relação ao mundo à sua volta (assim como seus retratados). Mas acho que o roteiro do filme peca quando leva para um lado deveras fantasioso e impossível. Um mundo fantástico demais, sem muito sentido e meio agoniante. Preferia que se tivesse mantindo centra fidelidade à obra de Arbus. Mas, não deixa de ser uma sessão interessante para quem, como eu, se interessa por fotografia.

terça-feira, abril 01, 2008

Como pode a vida deixar de ser drama e virar comédia romântica?

Uma questão; um pensamento. Inocentes. Mas a vida passa nos olhos feito filme. "Você acha que tem algum talento específico?". Não. Competência sim, talento não. Seria isso triste, incômodo, deprimente, perturbador? Não. Uma resposta entre duas, simples assim. 50% de sucesso. Probabilidades são sempre cruéis, nos mostram as chances de erro (o acerto é sempre incerto e quase impossível para nossas mentes pessimistas). Isso me parece ser apenas normal. Se vou descobrir minha verve, se vou deixar passar, se vou ter sucesso, fracassar, isso é outro filme. A seqüência, o volume 2. E eu espero que ele não siga a regra das seqüências e seja pior que o primeiro, como quase sempre acontece (a vida é cheia de quases, não?). Puxa, o meu filme pode virar filme de arte (essa sim, minha opção favorita: aqueles cenários, aqueles diálogos, quanta emoção), aventura, terror, policial, comédia pastelão, documentário, western, clássico, musical, italiano etc. Mas acho que o que queria mesmo que minha vida continuasse assim, comédia romântica. É pedir demais?

- o texto e a foto é para quem não sabe quem é o Mastroianni. Por que a Sophia Loren, é óbvio que você sabe.

terça-feira, março 25, 2008

Being a wiseguy


"You mean, let me understand this cause, ya know maybe it's me, I'm a little fucked up maybe, but I'm funny how, I mean funny like I'm a clown, I amuse you? I make you laugh, I'm here to fuckin' amuse you? What do you mean funny, funny how? How am I funny?"
- Tommy DeVito em Goodfellas

quinta-feira, março 20, 2008

Um fotógrafo amigo


Havia me esquecido de postar este link aqui. É um pequeno portfolio do fotógrafo (e grande amigo!!) João Urban. Se deliciem com suas imagens da imigração polonesa no Paraná! E aproveitem para dar uma voltinha no simpático site da Lúcia Guanaes onde ele está hospedado.
Essa foto não está no ensaio, mas eu coloquei-a aqui pois tive a oportunidade de assistir à sua produção! :)

terça-feira, março 04, 2008

A Lavoura Arcaica

“Saltei num instante para cima da laje que pesava sobre meu corpo, meus olhos de início foram de espanto, redondos e parados, olhos de lagarto que abandonando a água imensa tivesse deslizado a barriga numa rocha firme; fechei minhas pálpebras de couro para proteger-me da luz que me queimava, e meu verbo foi um princípio de mundo: musgo, charcos e lodo; e meu primeiro pensamento foi em relação ao espaço, e minha primeira saliva revestiu-se do emprego do tempo. Todo esse espaço existe para um passeio, passei a dizer, e a dizer o que nunca havia sequer suspeitado antes, nenhum espaço existe se não for fecundado, como quem entra na mata virgem e se aloja no interior, como quem penetra num círculo de pessoas em vez de circundá-lo timidamente de longe. E na claridade ingênua e cheia de febre logo me apercebi, espiando entre folhagens suculentas, do vôo célere de um pássaro branco, ocupando em cada instante um espaço novo; pela primeira vez senti o fluxo da vida, seu cheiro forte de peixe, e o pássaro que voava traçava em meu pensamento uma linha branca e arrojada, da inércia para o eterno movimento. E mal saindo da água do meu sono, mas já sentindo as patas de um animal forte galopando no meu peito, eu disse cegado por tanta luz tenho dezessete anos e minha saúde é perfeita e sobre esta pedra fundarei minha igreja particular, a igreja para o meu uso, a igreja que freqüentarei de pés descalços e corpo desnudo, despido como vim ao mundo, e muita coisa estava acontecendo pois me senti num momento profeta da minha própria história, não aquele que alça os olhos pro alto, antes o profeta que tomba o olhar com segurança sobre os frutos da terra, e eu pensei e disse sobre esta pedra me acontece de repente te querer, e eu posso! Vendo o sol se enchendo com meu sangue antigo, retesando os músculos perfeitos, lançando na atmosfera seus dardos de cobre sempre seguidos de um vento quente zunindo nos meus ouvidos, me rondando o sono quieto de planta, despenteando o silêncio do um ninho, me espicaçando o couro nas pontas da sua luz metálica, me atirando numa súbita insônia ardente, que bolhas nos meus poros, que correntes nos meus pêlos enquanto perseguia fremente uma corça esguia, cada palavra era uma folha seca e eu nessa carreira pisoteando as páginas de muitos livros, colhendo entre gravetos este alimento ácido e virulento, quantas mulheres, quantos varões, quantos ancestrais, quanta peste acumulada, que caldo mais grosso nesse fruto da família! eu tinha simplesmente forjado o punho, erguido a mão e decretado a hora: a impaciência também tem os seus direitos!”

Capítulo 14 de A Lavoura Arcaica

sábado, março 01, 2008

A "auto-ajuda" do Instante Decisivo

"Alguém entra repentinamente no seu campo de visão. Você começa a seguir essa pessoa através do visor da câmara. Você espera, espera, e finalmente aperta o disparador - e sai com a sensação - embora não saiba exatamente por quê - de que realmente pegou alguma coisa".
Henri-Cartier Bresson no ensaio “O Instante Decisivo”


Henri Cartier-Bresson, grande fotógrafo francês, gostava de fotografar com uma câmara Leica, com uma objetiva 50 mm. Um bom campo de visão, lentes cristalinas – as melhores que há – a praticidade do filme 35mm e o límpido visor telemétrico fazem dela uma câmara praticamente perfeita. Contudo, a escolha de Bresson tinha muito a ver também com aparência: a Leica é pequenina, tem um design simples, é uma câmara discreta. Com ela, ele podia sair pelo mundo e clicar sem ser notado, sem gerar frisson, interferindo o mínimo na cena, como era desejo dele.
Algo inesperado, um instante único, uma combinação de sombras, luzes, rostos. Uma pequena confusão, um vulto a passar, uma melancólica caminhada, uma cena de amor, amizade, devastação, solidão, degradação. O mendigo olha para o gato no beco, Sartre fuma um cachimbo, o homem olha através do vidro da janela do restaurante pensando - quem sabe! - em tempos antigos. Cenas que duram minutos, segundos, décimos, milésimos de segundo. E que, com sua Leica, Bresson capturava com os pequenos tempos do obturador.
A foto que ilustra esse texto mostra um desses instantes. As pessoas que dela fazem parte – somam cinco – formam um jogo geométrico que só um fotografo de olhar preciso e sensível como o de Cartier-Bresson conseguiria enxergar. A intrincada construção torna-se leve com a presença dos elementos nos exatos locais onde estão colocados, nem um milímetro a mais, nem um a menos, o que o fotógrafo mesmo chama de “equilíbrio imóvel”. A impressão que tenho é a de que ele anteviu a direção para que seguiam aquelas pessoas e aguardou o instante único em que, ao olhar dele, as pessoas estariam na localização perfeita para uma boa foto. E isso é o “instante decisivo”.
O momento da fotografia – clicada em Istambul no ano de 1965 - durou um tempo minúsculo mas se fixou para sempre no negativo preto-e-branco colocado dentro da Leica. E assim por diante, foi fixado no papel dentro de um laboratório, pendurado na parede, impresso em livros, catálogos, digitalizado. Hoje com um clique (de milésimos de segundo também) a encontro no google. Uma específica escolha de abertura, tempo, enquadramento, luz e, principalmente, a escolha do momento do clique fez de uma foto um clássico instantâneo.
O interessante nesta reflexão que Cartier-Bresson fez da fotografia é que ela vale para todos os setores da vida. As escolhas que fazemos, os caminhos que tomamos, as coisas que falamos podem mudar o curso de nossas histórias. São resultados irrevogáveis como as manchas que a luz provoca na prata do filme. A vida está repleta de instantes decisivos, impossíveis de se apagar. Devemos aproveitá-los, apreciá-los e refletir sobre eles o tempo todo. Contudo, como o próprio Bresson afirma, no ensaio, não podemos só pensar na composição, digo, nas conseqüências. Devemos deixar a intuição nos dizer o que fazer, para analisar tudo depois, com calma, no escuro do laboratório, ou melhor, na quietude de nossas mentes.

Ah! Um ensaio fotográfico que fiz foi publicado no Comunicação On-line. Confira aqui.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Análise de "O Momento da Morte"

Muriano, fronte de Cordoba. 5 de setembro de 1936. Soldado da milícia republicana, Frederico Borrel Garcia, no momento de sua morte. (“O Momento da Morte”, “O Soldado que cai” ou “A Morte de um Soldado Legalista”). Magnum Photos, Robert Capa © 2001 Cornell Capa

“A foto é como uma citação ou uma máxima ou um provérbio,. Cada um de nós estoca, na mente, centenas de fotos, que podem ser recuperadas instantaneamente. Mencione a mais famosa foto tirada na Guerra Cifil Espanhol, a do soldado republicano “alvejado” pela câmera de Robert Capa no mesmo instante em que é atingido por uma bala inimiga, e quase todos os que ouviram falar dessa guerra poderão evocar a imagem granulada em preto e branco de um homem de camisa branca, com as mangas arregaçadas, tombando para trás na beira de uma colina, o braço direito lançado para trás enquanto a mão solta o rifle; ele está prestes a cair, morte, sobre a própria sobra” (Sontag, 2003)

"O sociólogo francês Roland Barthes, afirma, em seu livro A Câmara Clara, que toda fotografia tem o que ele denomina punctum. O punctum é algo que punge o observador, que chama sua atenção, que o emociona, que o fere. Esse punctum é sempre algo subjetivo, individual e quase que único. Para mim, o punctum da fotografia "O momento da Morte" não está na imagem. O que me fere, me choca, me punge é o fato de que Robert Capa estava ali, naquele momento, tão próximo deste miliciano e de ter tido a capacidade, o sangue frio de fotografá-la.
Mas, o esforço não foi em vão. Com ela, Capa chocou (e ainda choca) o mundo com os horrores da Guerra Civil Espanhola, como Picasso fez ao pintar Guernica. Contudo, ao contrário do quadro, a foto mostra um horror que existiu em um determinado instante e cuja luz marcou para sempre o negativo que estava dentro da câmara 35 mm de Robert Capa, o que praticamente dá a ela uma aura de veracidade e força.
Ainda assim, muito se discute sobre a autenticidade dessa imagem, que já foi provada como verdadeira. Como Capa costumava dizer: se você não está suficientemente perto, suas fotos não serão suficientemente boas. Nesse momento e até no momento de sua morte, Robert Capa seguia a risca essa filosofia (o fotográfo morreu com a explosão de uma mina enquanto cobria a guerra da Indochina)
A imagem de Capa é bela e triste. A tristeza vem da obviedade de uma morte sem sentido, sem propósito, precoce e trágica. O soldado miliciano, trajado com roupas de civil - camisa branca de colarinho - larga sua arma no instante da morte com um tiro certeiro na testa. Uma imagem forte com quatro elementos visíveis: o homem, a arma, a sombra, e o vazio. E dois elementos invisíveis: o atirador e o fotógrafo.
Para mim, o que faz essa foto genial é o vazio e a sombra. Esta última parece estar em outra posição, que não a do homem. Parece correr da morte iminente, tentar fugir do enquadramento. E o vazio passa a idéia da solidão, da aridez de sentimentos que é a guerra. Um homem cai no vazio sem motivo nobre. O motivo nobre só vem com o conjunto, com a análise histórica da guerra. Um homem caído sozinho no campo não teve motivo para morrer. Mas essa imagem tornou-se um símbolo desse conflito. Historicamente, posso dizer que ela representa o fim da esperança dos legalistas/republicanos, embora ela tenha sido tirada em 1936, quando ainda havia esperanças.
“O ato de fotografar se realiza em uma fração mínima de tempo, e essa característica marca toda a complexidade e a singularidade da fotografia”, afirma Milton Guran, em seu livro “Linguagem fotográfica e informação”. Isso quer dizer que, de tão rápida, fugaz, a fotografia registra um momento único, não mais reproduzível e morto. E nessa fotografia de Robert Capa isso fica explícito.
A conclusão a que chego é a de que o fotojornalismo, assim como a arte, pode levar as pessoas a enxergarem melhor uma realidade distante, um sofrimento longínquo ou mesmo o terror de outra nação.
Ao simplesmente observar a fotografia de Robert Capa, pode-se perceber todo o horror de uma guerra injusta, injustificável e cruel. Os republicanos sofreram não só nas mãos de seus inimigos próximos, os nacionalistas, como sofreram nas mãos dos nazistas alemães e fascistas italianos. Além disso, sofreram o esquecimento da Inglaterra e a negação de França e União Soviética no momento em que mais precisavam de ajuda
Em prol de uma esperança de segurança e proteção do nazismo de Hitler, de sua sede imperialista, os países europeus deixaram a Espanha se destruir e ser dominada por uma ditadura fascista. Os esforços em “não intervir” acabaram por impulsionarem uma tendência que levou à Segunda Guerra Mundial.
A fotografia de Capa nos mostra tudo isso. O abandono de um soldado republicano, um civil que morre de um tiro na cabeça provindo de um soldado fascista. Ele cai em um campo da Espanha qualquer e leva junto consigo a Espanha em que acreditava, livre e democrática. Ou não. A cortina de ferro sobre ela poderia ter caído. Não pode-se analisar fatos que não foram.
Mas é fato que Frederico Borrel Garcia caiu naquele fatídico 5 de setembro de 1937 e deixou para trás esperanças mil. Robert Capa estava lá e registrou o momento para um sempre de reflexões, indagações e mistérios. O que fez Capa estar ali naquele momento exato? Sorte? Intuição? Ou sangue frio? Esses mistérios, o fotógrafo levou consigo quando, com a câmara no pescoço, sofreu ele as conseqüências de uma guerra cruel e triste."

Escrevi esse texto em novembro de 2007. Recentemente, foi devolvida ao Internacional Centre of Photography (criado em homenagem a Robert Capa) uma mala com 3500 negativos da Guerra Civil Espanhola, dada como perdida quando Capa foi forçado a deixar a Europa, no ínicio da Segunda Guerra Mundial. Há esperança de que nela sejam encontrados os negativos de "O momento da Morte". Talvez isso venha esclarecer um pouco melhor os mistérios que a circundam. Vamos esperar.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

de Faraway, So Close! do Wim Wenders


"Let me explain a couple of things: time is short, that's the first thing.
For the weasel, time is a weasel.
For the hero, time is heroic.
For the whore, time is just another trick.
If you are gentle, time is gentle.
If you are in a hurry, time flies.
Time is a servant, if you are its master.
Time is your god if you are its dog.
We are the creators of time, the victims of time and the killers of time.
Time is timeless: that's the second thing.
You are the clock, Cassiel."

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Recife

Já volto aí, gente.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Disco do Ano


Li naquela Revista da Semana (que por sinal é fraquíssima) que o Clube da Esquina do Milton Nascimento com o Lô Borges está sendo considerado o disco do ano de 2007. Tudo bem, mas o disco é de 1972, gents. Eles dizem que é por que foi recuperado, remixado, etc. Que falta de criatividade, o disco do ano é Blackout da BritBrit (essa é pra vocês, Ju e Iasa). Cheio de polêmica.

Enfim, disco do ano ou não, Clube da Esquina já é o disco do meu 2008. E Canção Amiga é um dos poemas mais lindos do mundo.

Canção Amiga - Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram
Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Pensava em inglês.

I feel numb.

It seems that nothing can change this feeling. It seems that I won’t be able to feel anything ever.

Man Ray was born in the 19th century. How is that possible? I don’t know.

He did a lot of nude pictures. Nudes are timeless. There’s no time, history, or difference when the clothes are off. People are all the same, aren’t they?

There is one of his pictures, the girl is looking left.Rarely, she has her clothes on, but is like Man Ray took them all when he clicked, cause she is revealed. Or she isn’t, I really don’t know yet if either happen when people are nude. The girl’s head is upon her hand Is like he has put all the weight of the picture in that hand. She is flawless, with her 20’s make up, her veil. It moves me. I can’t stop staring at it. I almost cry. Why all feel this things, sometimes, with works of art? For no reason at all, I feel the urge to cry and cry and cry. But I don’t. It was like that with a Miró in New York. Is like I’m empty inside and the artist sees that and makes me want to cry. No, they don’t see anything. But they work see through me as I look at them.

The girl has a trace in her make-up, just like an Arabian princess. I think was fashion in those days. Now it isn’t, I’ve been told. She has such a sad look. Or she is happy but feels numb and bored to have her picture taken by Mar Ray. I bet she didn’t expect him to turn out to be a famous photograph.

Her nails are short. She is sitting on a chair, very beautiful one. You can’t really see it, but you can imagine it. I notice her shadow behind the chair, for the first time. It has the curve of her 20’s hair-cut. The veil on her face is like Monalisa’s. Why I keep looking at this picture and writing? I don’t know. I guess it makes me feel alive.

I turn the page of the book (it only says Man Ray in the cover. Nothing more). There are two pictures of a woman naked. I think it’s the same lady from the last page. I turn the pages very rapidly without looking carefully at any of the pictures. Of course they must be wonderful. Perfect. But I seem to feel that all of them are trying to be that first one with the perfect woman, her shadow and her face. It’s just like what happened with Miró.

I guess that the first impression stays for good. But that is just a guess, isn’t it?

I look to all the pictures in the book. I love his work, it is surprising, mysterious and so beautiful. The women are so perfect. I love him. I discover the name of the girl: Kiki de Montparnasse. Actually, her real name was Alice Prin. I guess she’d pretend to be French and would fake an accent. Must have been a real character.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Mais Flor Garduño


Lecciones de Botanica - Suiça - 1997
Eu amo o trabalho dessa fotográfa mexicana! O site dela é www.florgarduno.com.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Post de Ano novo!

Tudo o que eu tentei escrever até agora sobre o ano de 2007 ou foi deprimente demais, ou acabou se transformando em cartas para pessoas que não merecem recebê-las ou soou piegas demais. Desisti.

Não vale a pena escrever sobre o que aconteceu nesse ano que foi o que mais custou a passar em toda minha pequena vida. Neste fim de ano não há “como passou rápido!” ou “parece que foi ontem!” para mim.

Mas 2007 merece sim ser relembrado por toda minha vida. Um período de mudanças e de descobertas. De dúvidas, incertezas. De alegrias e tristezas. De saúde e de doença? Haha. Aí não. Mas de viagens, festas, filmes, leituras, fotografias, arte, palestras, ópera, teatro, beijos, abraços, choro, risos, muito trabalho e muito tédio.

E que venha 2008, cheio de viagens, planos, amores, esperanças, alegrias, tristezas (por que não?), novidades, festas e muito muito muito aprendizado. E claro, muita arte para deixar nossos corações leves e batendo sem medo algum.

Como em todos os dias 31 de dezembro de minha vida: eu espero que o próximo ano seja muuuito melhor do que esse que passou. E este foi um desejo que quase sempre se realizou.

Fernando Pessoa – O Guardador de Rebanhos

Poema XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar
Seria mais feliz em um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como que não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como que andar,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

domingo, dezembro 30, 2007

A felicidade de Arthur Schopenhauer

“Todos nós nascemos na Arcádia todos viemos ao mundo cheios de pretensões de felicidade e prazer e conservamos a insensata esperança de fazê-las valer, até o momento em que o destino nos aferra bruscamente e nos mostra que nada é nosso, mas tudo é dele, uma vez que ele detém um direito incontestável não apenas sobre nossas posses e nossos ganhos, mas também sobre nossos braços e nossas pernas, nossos olhos e nossos ouvidos, e até mesmo sobre nosso nariz no centro do rosto. A experiência vem em seguida e nos ensina que a felicidade e o prazer não passam de uma quimera, mostrada a uma distancia por uma ilusão, enquanto o sofrimento e a dor são reais e manifestam-se diretamente por si sós, sem a necessidade da ilusão e da espera. Se seu ensinamento se mostra frutífero, deixamos de buscar a felicidade e o prazer e passamos a nos preocupar apenas em fugir ao máximo do sofrimento e da dor. “O homem sábio não persegue o que é agradável, mas a ausência de dor” (Aristóteles, Ética a Nicômaco). Reconhecemos que o melhor que o mundo nos pode oferecer é um presente suportável, tranqüilo e sem dor; se isso nos é dado, sabemos apreciá-lo e cuidamos bem para não estragá-lo ansiando sem trégua alegrias imaginárias ou preocupando-nos temerosos com um futuro sempre incerto que, a despeito de nossos esforços depende totalmente do destino. Além disso: por que haveria de ser insensato preocupar-se sempre em usufruir ao máximo o presente único e seguro, se a vida inteira não passa de um fragmento maior do presente e como tal é absolutamente efêmera?”

Escrito pelo pessimista Arthur Schopenhauer n’A Arte de Ser Feliz, Máxima

sábado, dezembro 29, 2007

Fica a dica!


Quer dar uma boa risada nessas férias tediosas? Eu recomendo este site! É um programinha da revista In Style (a Estilo americana) em que você envia uma foto sua e pode "exerimentar" os cortes de cabelos de diversas famosas. Hilário! E ótimo para quem está pensando em mudar o visual.
Ali em cima tem uma amostra para aqueles que sonham com o dia em que a Manuela vai cortar o cabelón, passar uma tinta e, finalmente, mudar. Enquanto eu crio coragem, se divirtam com a Manuela-Madonna, Manuela-Rihanna, Manuela-Gwen etc... hahahaha

sexta-feira, dezembro 28, 2007

A menina e a janela

A janela. Nos prédios vizinhos, duas ou três acesas, e nem madrugada é. A solidão é real, absoluta – até mesmo a cidade está vazia, e não só seu coração. “Uma noite em Curitiba” é o livro que lê e a vida que vive. Uma brisa com cheiro de verde bate no rosto, traz lembranças de meninice. Um inesperado raio cai sobre algum lugar distante, são dois raios e são três raios. Mesmo na ameaça de tempestade, a lua se mostra cheia em sua glória total. Lembra-se da última vez em que olhou por esta janela e estava sentindo-se, como hoje, leve como uma pluma. A lua era cheia, assim como agora, e ela deixou a cortina aberta para que iluminasse seu sono. A situação era outra, os sentimentos eram outros, a moça era outra, o motivo era outro. Hoje, provavelmente, a moça vai deixar a lua (e a tempestade) cuidarem de seu sono. E só a natureza, com esse cheiro de verde infantil, será testemunha desta tranqüilidade de esquecimento, esperança e leveza.